Mercearia Poço dos Negros
— desde 2016 —

Na confusão que representam as compras nas grandes superfícies, alguns de nós perguntam o que aconteceu às mercearias portuguesas que criavam memórias, que apareciam em cenas cómicas do nosso cinema? Para responder a essa pergunta, apresentamos hoje a história da mercearia Poço dos Negros e dos seus proprietários que, prontamente, dizem a Portugal inteiro: ainda cá estão.

Maria e Eduardo não são estranhos ao negócio tradicional. O seu percurso enquanto empreendedores já englobou duas casas de produtos artesanais. Esta mercearia representa, portanto, um culminar da experiência adquirida nestes prévios estabelecimentos. Tiveram a felicidade de encontrar o local perfeito para esta nova aventura comercial na rua onde moravam, o Poço dos Negros. O curioso nome advém da ordem cluniacense dos monges beneditinos que disponham de um poço no limite sul da sua propriedade. De salientar que isto se passou antes da construção do aqueduto de Lisboa e que, por conseguinte, tornava a água um bem precioso. A ordem usava capas pretas e o nome acabou por ficar para sempre ligado a essa característica.

Voltando a um passado mais recente: o número 97-99, que até então era ocupado pela Taberna Madeirense, deu lugar à Mercearia Poço dos Negros. A abertura foi em 12 de dezembro de 2016 e o estabelecimento só tem vindo a crescer, tanto em qualidade, como afluência. A decoração foi conceptualizada por Eduardo, para quem a arquitetura sempre foi uma paixão, ao passo que o logo ficou a cargo da designer Mariana Soares. O público é uma miscelânea de residentes e turistas de Airbnb e todos eles saem da mercearia - se assim o desejarem - com um conhecimento ímpar dos produtos que aqui são vendidos. Isto porque, Maria e Eduardo fazem questão de saber o que estão a vender. Por outro lado, também conhecem muito bem as pessoas com que trabalham, todos eles produtores locais, que vendem em pequenas quantidades por forma a assegurar a qualidade e aplicação prática de processos centenários.

No Poço dos Negros pode-se encontrar um pouco de tudo e tudo o que lá se encontra representa um pouco de quem os faz. Desde as peças em Burel (lã 100% de ovelha) que duram uma vida inteira, até ao sal de gema que provém das salinas de Rio Maior, a mercearia está repleta de verdadeiros tesouros. De uma família de Pernes chegam-nos artigos em madeira, esculpidos a partir de uma única peça. De Lamego vêm nozes frescas, abertas à mão, apenas quando Maria e Eduardo as requisitam, assim como uma deliciosa marmelada que ainda é feita à lareira. E se algum se interrogou sobre o peculiar aroma que por vezes emana nesta e outras zonas da cidade, Maria resolve o mistério: na Madragoa faz-se o café Flor da Selva, à maneira antiga, torrado com lenha. E claro está, não podiam faltar as conservas de peixe. A mercearia trabalha com três conserveiras que, além de usarem azeite virgem que apura o sabor da conserva a longo prazo, escaldam o peixe antes de o enlatarem. Uma delícia rara! De salientar a muito procurada ventresca de atum e bacalhau assado na brasa que vai para a lata com azeite e alho. Sim, bacalhau assado na brasa e enlatado! No campo das raridades, mencionamos ainda que alguns dos vinhos aqui comercializados são numerados, garantindo-lhes uma certa exclusividade.

O duo de empreendedores tem também preocupações de sustentabilidade ambiental. A venda a granel é uma grande aposta para o estabelecimento e muitos dos clientes já trazem as suas próprias embalagens. O plástico é evitado sempre que possível.

Assim é a Mercearia Poço dos Negros, um local de deliciosa variedade, onde a simpatia é uma constante e o diálogo, um meio de conhecer quem lá passa, ao invés de servir só para confirmar o troco. Não hesite em vir conhecer esta aprazível loja e aproveite as provas gratuitas de vinhos que são pontualmente organizadas, com os representantes das respectivas marcas, sempre acompanhadas de bons petiscos, como manda a boa cultura portuguesa.  
Mercearia Poço dos Negros

 

2018-09-03T13:55:20+00:00