Pastelaria Néné
— desde 1963 —

No início dos anos 60, passavam pela cave da antiga sub-estação da Rádio Marconi, no Nº 42-44 da Rua Augusta, os cabos submarinos que ligavam Lisboa à mítica Estação de Carcavelos para dali seguirem a travessia do Atlântico aos quatro cantos do globo. O encerramento da Estação de Carcavelos, em 1962, levou consigo a sub-estação da Baixa, ficando o rés-de-chão e a cave do edifício por alugar. Um ano depois, onze comerciantes e industriais da vizinhança juntaram-se com uma ideia de negócio inovadora: abrir uma pastelaria cinco estrelas na Baixa Pombalina. A renda tinha uma matemática bastante linear, um conto de réis a cada sócio, onze sócios, onze contos. Fora os nomes que o tempo fez esquecer, a sociedade contava com Manuel Alberto Godinho, Lionel Soeiro, o Pereira da Leitaria Sintra e o Martins de Vila Nova de Cerveira, a quem se reconhece um papel importante na escolha do nome.

Reza a história que faltava ao Sr. Martins, dedicado guarda-livros da CP, poucos dias para ser avô. A par com a alegria, recebia dos mais chegados votos de boa esperança veiculada por uma expressão curiosa e muito popular na época — “Vem aí um Nénééé!”. Dito e feito, os sócios acharam por bem homenagear a mãe e a criança, e lá escolheram Néné para nome da casa, que por sinal soava lindamente e para além do mais ficava no ouvido.

Dois anos passados sobre a abertura, a sociedade ficou reduzida a três sócios: Leonel Soeira, Pereira e o Manuel Godinho, este último sócio maioritário. Em 1970, entra em cena Rui Marques, empregado de mesa que viria, em 1976 e juntamente com a esposa Maria Olímpia, a tornar-se sócio pela mão de Manuel Godinho, o qual cedeu, a título de empréstimo, 5% da sociedade.  Em 1981, Leonel Soeira e Pereira são substituídos por Zé Maria e Adelino Vaz, constituindo com Rui Marques, Júlio Dias e Elisa Martins a sociedade atual.

Os anos 80 seguiam tranquilos, entre petiscadas e convívio, na mais genuína tradição bairrista lisboeta, a qual se fazia ainda sentir na baixa. Tempos que hoje evocam saudade, guardada nas memórias dos infantes da casa, crescidos entre a azáfama da cozinha e a convivência caótica ao balcão. Durante as férias, um dos “nénés” da casa, o Pedro, filho de Rui Marques, juntava-se à confeção dos croquetes nos intervalos das corridas de carrinho. Nascido e criado no Estoril, o Pedro começa a trabalhar “a sério” na casa Néné em 1992, com 16 anos de idade e muitas ideias para pôr em prática.

Antes da entrada do Pedro, o Néné era uma casa à antiga, com venda de tabaco, de carnes frias, laticínios e restaurante “à Portuguesa”, na cave. A pouco e pouco, o Pedro foi introduzindo as suas ideias, acrescentando todos os anos novos produtos, listas e menus, chegando mesmo a iniciar a moda das “Sardinhas na Baixa”. Hoje em dia, qualquer cliente da casa sabe que pode contar com uma novidade de inverno e outra de verão. Uma delas, o famoso Goffre Néné,  tornou-se mesmo o ex-libris da casa, apreciado por turistas, moradores, assim como ministros e secretários do Complexo Ministerial do Terreiro do Paço, que não deixam de tentar a sorte na Rua Augusta, na esperança de encontrar fila pequena. 

Sendo filho de um dos sócios, o Pedro sempre tivera de lidar com a responsabilidade de dar o exemplo, tendo-se destacado pelo sentimento de lealdade e o gosto pela profissão. Em 2014, assumiu a gerência contando, já no final desse ano, com o irmão Filipe na sub-gerência. Renovou o compromisso com a promessa de inovar e acelerou o processo de modernização, retendo no entanto, a alma bairrista patente no trato humano dado à clientela e aos colaboradores. Não existem senhas, fala-se como se respira, com espontaneidade e paixão. Vive-se para servir e dar de si, como em qualquer estabelecimento do comércio tradicional.

Durante o inverno, são os chocolates quentes, os capuccinos e os cafés bom-bom, servidos com os gofres quentinhos. No verão, são os refrescantes granizados e gelados de mil sabores, degustados na esplanada desenhada pelo arquiteto Pedro Sottomayor, a primeira da baixa com o novo padrão estabelecido pela Câmara Municipal de Lisboa. Uma iniciativa pioneira de design participativo que contou com o envolvimento do Pedro, consciente da necessidade de “acompanhar a evolução dos tempos”.

Desde a sua fundação, a Pastelaria-Restaurante Néné foi por diversas vezes alvo de ofertas milionárias, todas elas recusadas pelo amor nutrido pelos sócios à casa. Recebeu também os pedidos mais inesperados, como daquela vez em que um casal chinês pediu um gofre com sardinha. Um marco da Rua Augusta, dotado de profunda consciência, com uma oferta abrangente e inclusiva: produtos sem glúten, muitos legumes, tapas e um atendimento que vai além da excelência.

Sim, estamos a falar de simpatia, aquela que não se encontra nos catálogos.  
Néné

 

2018-06-20T16:13:38+00:00