Retrosaria Brilhante
— desde 1909 —

José Manuel da Silva Reis, proprietário da Luis S. Fernandes , agora Retrosaria Brilhante, nº 79 e 81 da Rua da Conceição, é um daqueles raros indivíduos capaz de relatar a história de Lisboa, a sua cidade, melhor que qualquer guia.

Em 1952, com apenas 14 anos feitos, o Zé, conhecido por Reis, vislumbrava pela primeira vez, atónito, a beleza da rua do Carmo, onde ficavam os Armazéns Grandela, um local enorme e movimentado onde passaria a sua mocidade, a trabalhar, a descobrir e a aprender. No meio da celeuma e correria, lá diziam ao jovem Reis, contratado como ajudante de Balcão, para ir fazendo umas tarefazitas. Acontece que uma delas foi a de decorar as montras dos armazéns e, como se costuma dizer, nenhuma tarefa é pequena demais. O dedicado e esforçado rapaz fez um brilharete tal que acabou por montar a mais espantosa vitrine que os donos tinham visto à data. Como seria de esperar, a chefia tratou de dar o devido uso ao talento do jovem Reis tornando-o decorador oficial das Montras. Passados cinquenta anos é o próprio Sr. José quem nos confessa, com orgulho desprovido de qualquer presunção, que já foi o Balconista/Decorador mais bem pago de Lisboa.

Do Grandela foi trabalhar para a Retrosaria Luís Soares Fernandes, trazendo consigo a experiência, o zelo e o bom gosto que lhe são peculiares. Revelou ser um trabalhador esmerado, não demorando a ganhar a confiança do proprietário. Balconista e mais tarde Gerente começou desde logo a ser o responsável pela decoração e pelas compras e, com o passar dos anos, pela totalidade do negócio. O Sr. Reis viu os anos voar nesta reconhecida casa, passando também ele a integrar a história da cidade, com todo o seu aprumo e familiaridade.
Mais tarde, por não ter herdeiros em Portugal, o dono propôs a compra.

Apesar de tudo, em todos os seus anos de casa, a maior alegria não veio de uma qualquer peça em exposição, mas sim da sua filha Ana, que viria, anos mais tarde, a tomar conta do negócio. Assim foi a transformação da Luis S. Fernandes em Retrosaria Brilhante.
Esta mudança resulta, porém, num novo contrato de arrendamento que força o estabelecimento a mudar-se, para tristeza do Sr. Reis, já habituado às vivências na rua da Conceição. A rua para onde se mudaram continua no Bairro, mas a antiga morada, não podia, contudo, ser mais indicada. Ana explica-nos porquê: séculos antes, a organização urbanística, levada a cabo pelo marquês de Pombal, separava as atividades por rua. A Rua da Conceição foi batizada em honra da santa com mesmo nome, padroeira dos cuidadores, em que os retroseiros se reviam perfeitamente. Estavam, portanto, entre os seus colegas de profissão.

Ana, licenciada em marketing e publicidade, sempre teve fascínio pelo ambiente proporcionado pelo comércio tradicional e, juntamente com o seu pai, menciona algumas preocupações, nomeadamente a descaracterização da baixa lisboeta. Tal facto é explicado pela desertificação de moradores, que, face a rendas incomportáveis, não têm outra opção senão sair, deixando deste modo os negócios, também a braços com rendas altas, desapoiados. Para estes dois proprietários, o comércio local é importante, pois assenta em relações de proximidade e confiança que convém preservar.

A mudança é, contudo, uma constante na vida e o estabelecimento soube atualizar-se, abrindo portas ao artesanato de autor que complementa a sua excelente oferta. Para Ana, o artesanato, rico em história, é um meio de contacto com os clientes que procuram saber a origem dos artigos. Relembra, orgulhosa, episódios em que turistas reconheceram a técnica de papetagem (adaptação da técnica de papel marché), utilizada em algumas peças na loja, mas assume que ficou um pouco surpresa.
Aparentemente, o talento português é bem conhecido lá fora. Cá dentro, com lojas como a Retrosaria Brilhante, já é garantido.
 
Retrosaria Brilhante

 

2018-06-20T15:09:18+00:00